Friday, August 05, 2005

Eugénio de Andrade


As Crianças

Elas crescem em segredo, as crianças. Escondem-se no mais oculto da casa para serem gato bravio, bétula branca.
Chega um dia em que estás descuidado a olhar o rebanho que regressa com a poeira da tarde, e uma delas, a mais bonita, aproxima-se em bicos de pés, diz-te ao ouvido que te ama, que te espera sobre o feno.
A tremer vais buscar a caçadeira, e passas o resto da tarde a atirar sobre as gralhas, inumeráveis, àquela hora.


in «Memória Doutro Rio», 1978